Resistência, muito pop e liberdade: Ed Luíz celebra 17 anos da festa @bsurda e repensa os desafios da cena LGBTQIA+ em BH
Estreand o quadro CARA A CARA, da coluna Clube do Rolê BH, Ed reflete sobre a evolução da cultura queer em Belo Horizonte.
Gleidistone Silva
Colunista
9 min
Foto: Yury Oliveira
Com 17 anos de trajetória marcante na noite mineira, a @bsurda consolidou-se como a maior e mais emblemática festa pop LGBTQIA+ do estado de Minas Gerais. Mesmo com a imponência e o alcance indiscutível da @bsurda, captar recursos financeiros e atrair patrocínio de grandes marcas continua sendo uma das barreiras mais complexas na produção cultural focada no público LGBTQIA+. Segundo Ed, o caráter abertamente queer da festa ainda gera ressalvas no mercado corporativo, um reflexo agravado por uma onda de conservadorismo que se manifesta em escala global e local.
Ed, para você quais são as maiores barreiras reais que você enfrenta hoje para conseguir patrocínio de grandes marcas e captação de recursos? Você sente que as empresas ainda têm receio de associar a imagem delas a uma festa abertamente queer?
Ed Luiz — Acho que a @bsurda ser abertamente um rolê LGBT ainda faz com que algumas marcas tenham muita dificuldade. Não sei se o motivo real é por ser um produto LGBT... E este ano pegou muito a questão de ser um ano político; as marcas não querem se comprometer muito com certas coisas. Você falou às vezes "é só de BH", pensando nisso não foi só BH. A gente teve o exemplo de São Paulo, de do Rio de Janeiro, de outras cidades que também passaram e estão passando por essa dificuldade de conseguir apoio enquanto se é um produto LGBT.
BH tem uma cena hoje que é muito efervescente quando a gente fala da cena de festas na cidade. A própria cena LGBT também. Qual o segredo para a @bsurda se manter há tanto tempo atuante e relevante na cena cultural da de Belo Horizonte?
Ed Luiz — BH realmente tem uma cena LGBT forte. A gente tem uma das maiores cenas de Ballroom e de Vogue do mundo, assim. Isso é muito legal e eu acho que isso não é tão falado. Esse ano a gente faz 17 anos. Eu acho que a gente acompanhou muito o processo da música pop, assim. Se for pensar, os dois primeiros anos de Absurda não tocava tão pop, mas aí a gente não tinha uma cena pop, a gente não tinha artistas...
A @bsurda não começou pop. Nos dois primeiros anos a gente não tinha uma cena pop estabelecida, não tínhamos os artistas de hoje. Eu me lembro que quando lançou 'Born This Way', da Lady Gaga, a gente se perguntava o que estava acontecendo aqui. Então meio meio que a gente foi acompanhando todo esse processo musicalmente falando mundialmente, principalmente hoje muito influenciado pela música pop. Então acho que isso fez com que a gente conseguisse tá tá até hoje relevante.
Ao repensar os perrengues enfrentados ao longo da trajetória, Ed resgata com transparência o momento mais frustrante da história do projeto: a tentativa de realizar o primeiro Festival Absurda no tradicional espaço Gran Finos. O evento contava com um line-up de peso para a época, reunindo Jaloo (em sua estreia em BH) e Rico Dalasam.
E se a gente for falar um pouco dos perrengues da produção mesmo, qual foi o maior desafio que você já enfrentou? Algum sapo que você teve que engolir nessa trajetória enquanto produtor da @bsurda?
Ed Luiz — Saiu capa de jornal em todos os cadernos de cultura da cidade, tudo, tudo... e não rolou. Até hoje a gente fica tentando entender o que aconteceu. A gente vinha de um ano anterior muito legal e acreditava que o próximo seria ótimo. Talvez tenhamos ficado um pouco fora do tempo.
Às vezes a gente [enquanto produtor cultural] tem uma visão: "Poxa, eu acredito naquele artista ali agora" e tal, que a gente teve isso. A primeira vez da Pabllo foi na @bsurda, a primeira vez da Glória em BH foi com a @bsurda. Aí falamos: "Vamos, vamos, vamos, vamos trazer!". Aí às vezes eu acho que a gente fica meio fora do tempo, sabe?
O produtor compara essa dinâmica de tempo ao fenômeno da Banda Uó, atração de destaque do aniversário de 4 anos da festa ao lado do Bonde do Rolê. Para ele, certos movimentos e artistas surgem tão adiantados em relação ao consumo do público geral que o reconhecimento pleno e massivo acaba chegando anos mais tarde.
Ed Luiz — É, tem isso. Tipo, às vezes a gente recebe um feedback legal do público, mas eu acho que tem isso também. Às vezes a gente vê, enxerga um artista que a gente quer muito trazer, tipo, só que não é... Às vezes o público não quer aquele artista...
Para além do entretenimento, a @bsurda sempre teve um viés de ocupação, liberdade e segurança para a comunidade. Em tempos de avanços e retrocessos políticos, qual é a responsabilidade que você carrega ao gerir um espaço que, antes de ser diversão, é um refúgio para tanta gente?
Ed Luiz — Quando a gente começou, a gente não tinha tanta essa preocupação, tipo, só falar assim: "Ah, vamos, tipo, de pessoas trans". Não tinha muito. 17 anos atrás não era uma coisa que tava igual a gente tem hoje. Isso também foi com o tempo.
Teve uma pessoa que mandou uma mensagem pra gente falando assim: "Eu quero me montar pela primeira vez. Eu não posso me montar em casa, eu não posso me montar na casa dos meus amigos, não conheço ninguém que possa me ajudar nisso. Eu posso chegar mais cedo na boate e me montar no banheiro da boate?".
A gente nunca tinha pensado nisso. A gente falou: "Pode!". Aí eu lembro que a pessoa chegou cheia de mochila, de sacola, super feliz, entrou no banheiro, se montou... Tipo, se divertiu a noite inteira.
A partir dessa experiência, e intensificado com a realização de edições de grande porte com queens vindas do reality RuPaul's Drag Race, a produção da @bsurda passou a estruturar acolhimentos genuínos para a diversidade de corpos e expressões que frequentam a festa, preparando a equipe para receber o público com respeito absoluto.
Ed Luiz — A partir daí veio uma demanda muito grande que a gente não esperava. Então foi a gente entendendo o que que o que que a gente faz enquanto festa, enquanto produção podia fazer por essas pessoas. E ao longo dos anos foi tipo hoje a gente agregando isso de uma forma é mais tranquila e de uma forma que fosse verdadeira e segura também, não fazer só por fazer entendendo o que era necessário e como que podia ser feito a cada momento, cada ação dessa.
Nós somos 100% itinerantes. A gente tem essa preocupação de ocupar a cidade e estar cada vez em um lugar diferente. Não abrimos mão disso.
Ed, tem uma mística na produção cultural de BH que existem panelinhas, né, de produtores, de casas, enfim... Você sente isso na @bsurda? Em algum momento você já sentiu que já rolou um boicote ou por não fazer parte dessa panelinha?
Ed Luiz — Eu acredito que aí entra aquela coisa de novo. A gente já é um evento LGBT, é já é considerado um evento mais popular pelo valor dos ingressos que a gente pratica. Então isso faz com que a gente não chegue a certos lugares simplesmente por ter às vezes nem ser só por ser um evento LGBT, às vezes por ser um um um evento que tem um preço mais acessível em comparação às outras.
Ah, beleza. Ah, tem outras festas LGBTs da cidade que não são abertamente tão abertamente LGBTs, mas que têm um público quase majoritário LGBT e que praticam um valor de ingresso é é um pouco diferente. Então existe essa panelinha mesmo que existe na cidade. Mas eu acho que isso é em qualquer lugar. Eu acho que é em qualquer setor, não tem como muita gente fugir disso.
Desde quando a gente começou a ser um evento, a ideia nunca foi estar num lugar fixo. A proposta sempre foi ser um evento 100% itinerante, que cada edição acontece em um lugar diferente.
Alguns comentários falam sobre a gourmetização da @bsurda. Que o público de hoje vai mais para se mostrar no Instagram do que para viver a pista de verdade. Você concorda com isso? O que você responde para quem diz que a festa perdeu a essência de resistência?
Ed Luiz — Ah, eu amei essa pergunta! (risos) Falei assim: "Gente...". Pelo menos a gente nunca a gente nunca escutou isso. Eu acredito que tem algumas Eu acredito que tem algumas pessoas que sim, elas vêm por esse lado. Mas aí se a gente se olhar hoje, se eu pegar a Absurda de 6 anos atrás quando o Instagram, digamos, tava mais no auge uma festa nossa de média, sei lá, de 400, 500 pessoas, o número de marcações que a gente tinha no no Instagram eram muito maiores do que hoje. Então, tipo assim, tipo, tem festa que a gente faz no final da noite ou no domingo de manhã: "Ah, vamos dar repost". Quase que não tem.
A gente fez um especial recente da Madonna, festa lotada com quase 800 pessoas, e tivemos quase zero marcações no Instagram. As pessoas hoje estão menos tempo com o celular na mão e mais tempo vivendo a pista de dança. O comportamento mudou completamente; elas querem ficar de boa e curtir aquele momento.
Encerrando a conversa em tom de reflexão para o ano eleitoral, Ed reforçou a necessidade de uma distribuição mais justa e igualitária das verbas públicas e dos espaços culturais da capital mineira.
Qual é o seu desejo para a cultura de BH? O que você espera para os próximos anos? A gente tá num ano de eleição também. O que que você acha que a gente precisa evoluir para cultura de BH ser ainda melhor e mais acessível pra todo mundo?
Ed Luiz — O meu desejo é igualdade. Que o poder público compartilhe recursos de forma igual para todas as pessoas da cidade, principalmente com os eventos LGBTs e de periferia. Que os novos espaços cheguem entendendo que a cidade tem pequenos produtores que fazem coisas gigantes e potentes, sem rejeitar ninguém no início. Muita coisa grande em BH começou pequenininha e tem um poder enorme.
Confira a íntegra da entrevista no canal Clube do Rolê BH no Youtube: