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    Sem apresentar nenhuma prova, prefeito de BH destrói ciclovia após dizer que 'Justiça autorizou'

    Prefeito afirmou em vídeo que aguardava autorização da Justiça para retirar a estrutura, mas Prefeitura não apresentou a decisão citada.

    Jô Andrade

    Jô Andrade

    Repórter

    5 min17 de junho de 2026
    Sem apresentar nenhuma prova, prefeito de BH destrói ciclovia após dizer que 'Justiça autorizou'

    Prefeito de BH, Álvaro Damião (União) fez vídeo mostrando desmanche da ciclovia na Afonso Pena. Foto: Reprodução/Instagram

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    O prefeito de Belo Horizonte, Álvaro Damião (União), voltou a colocar a ciclovia da Avenida Afonso Pena no centro do debate público ao anunciar o desmanche da estrutura instalada no principal corredor da capital.

    Usando uma camisa polo preto da marca de luxo “Hugo Boss”, Damião aparece em vídeo publicado nas suas redes sociais dizendo que veio para solucionar um problema de uma demanda de “boa parte da população de Belo Horizonte”. Em seguida, afirma que estava esperando a Justiça autorizar a destruição da ciclovia.

    A ciclovia em questão faz parte do projeto de revitalização da Avenida Afonso Pena, que consumiu R$26,3 milhões de dinheiro público. As obras foram iniciadas no fim de 2023, mas foram interrompidas em abril de 2024 após questionamentos do Ministério Público na Justiça.

    “Chegou um dos dias mais esperados por boa parte da população de Belo Horizonte: dia em que nós vamos desmobilizar a polêmica ciclovia da Afonso Pena. A gente estava esperando a Justiça autorizar. A Justiça autorizou, a Prefeitura veio e desmobilizou”, afirmou o prefeito.

    Mas, ao que parece, essa autorização da Justiça não existe, e não foi apresentada pela prefeitura, até o momento, nenhum documento que comprove a fala do prefeito.

    Entenda o histórico

    O projeto previa a implantação da ciclovia ao longo do canteiro central da avenida, ligando a Praça Rio Branco (Praça da Rodoviária de BH) à Praça da Bandeira (no alto da Afonso Pena).

    Em abril de 2024, as obras viraram alvo de uma ação do Ministério Público, que questionou a falta de licenciamento urbanístico e classificou a intervenção como incompatível com a via. No mesmo mês, a Justiça rejeitou o pedido para barrar a ciclovia. Mesmo assim, a Prefeitura escolheu parar de vez as obras.

    A situação ficou ainda mais controversa em junho de 2025, quando uma nova decisão judicial voltou a dar sinal verde para a continuidade do projeto. Apesar disso, o município manteve a estrutura inacabada e não retomou os trabalhos.

    Agora, após anos de impasse, a mesma ciclovia que teve sua construção autorizada pela Justiça, e aprovada por lei, vem sendo desmontada antes mesmo de ser concluída.

    Plano de mobilidade

    O ciclista e fundador do movimento Ciclo Rota BH, Cristiano Scarpelli, participou do processo que foi movido pelo Ministério Público contra a implementação da ciclovia, e acompanhou de perto o uso da pista exclusiva de ciclistas.

    Ao Xôtilfalá, Cristiano explicou que o argumento do prefeito foi que a ciclovia atrapalha o fluxo de carros e ônibus, mas, o estudo técnico que foi elaborado antes da criação da pista mostra um cenário bem diferente.

    “Após eu notar que o Damião estava querendo desfazer a ciclovia, entrei com cerca de 40 pedidos de acesso à informação, e em vários documentos a prefeitura afirma que não iria decidir nada sobre a ciclovia até que tivesse o trânsito julgado no processo [judicial]. Agora, do nada, eles estão falando que realizaram estudos, mas não existe nenhum documento que comprove que esses estudos foram feitos, ou quando foram e por quem Contradiz contradiz tudo que falaram até poucas semanas atrás. Contradiz anos e anos de estudo”, afirmou Cristiano.

    Vale ressaltar que a ciclovia na Afonso Pena vem sendo pensada desde 2006. Esse projeto fez parte dos planos de mobilidade, foi discutido em diversos conselhos e está previsto em lei.

    “A prefeitura fez uma série de estudos, inclusive com contagem veicular em toda a avenida. O local com menos fluxo de veículos era nesses quarteirões onde foi realizada a ciclovia”.

    Ainda existe um pensamento muito ultrapassado sobre o uso da bicicleta nas vias urbanas, que foca seu uso apenas em lazer e esportes e ignora o fato de que o ciclismo é um tipo de modal. A bike também leva pessoas ao trabalho, aos estudos, ao supermercado e a tantos outros lugares.

    “Eu acho que ele [Álvaro Damião] não gosta mesmo de ciclovia, não entende a importância da espacidade, ele tá achando que é só um local para praticar esporte, atividade física, não tá entendendo que bicicleta também é para deslocamento”, afirmou o ciclista.

    O que diz a Prefeitura de BH?

    Por nota, a Prefeitura de Belo Horizonte afirmou que fez uma nova avaliação “detalhada da obra”, e identificou que os estudos originais não conseguiram antecipar os impactos da ciclovia sobre a capacidade do sistema viário da região, o que é especialmente sensível pelo fato de a Avenida Afonso Pena ser um corredor de papel estruturante no transporte coletivo.

    “No trecho implantado entre a Praça da Bandeira e a Rua Trifana, a ciclovia foi construída integralmente sobre a pista de rolamento destinada aos veículos automotores, ocupando 12% da largura total da via. A ciclovia acabou gerando uma diminuição perceptível da capacidade operacional das faixas destinadas ao tráfego geral, em uma avenida que já se encontra com acentuada sobrecarga nos horários de pico. Ao longo da via circulam diariamente mais de 40 linhas do transporte coletivo, que fazem mais de 3.600 viagens e transportam mais de 150 mil passageiros por dia. Além disso, circulam pela avenida diariamente cerca de 21 mil veículos”.
    “Outro ponto considerado foi a proximidade da via a equipamentos de saúde de alta complexidade, como o Hospital João XXIII, situado a poucos metros do corredor, o que torna qualquer redução da capacidade viária um risco potencial ao tempo de resposta de ambulâncias e viaturas do Corpo de Bombeiros. Cabe ressaltar que, para além das justificativas baseadas em estudos técnicos, a retirada da infraestrutura está amparada na autotutela administrativa e na ausência de impedimentos judiciais ou administrativos”, disse a prefeitura.

    A reportagem também questionou o município sobre a suposta autorização judicial que aprovou a desmobilização da ciclovia, mas não obteve retorno até o final desta edição.

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    Sobre o autor

    Jô Andrade

    Jô Andrade

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    Jornalista especialista em textos pela UFMG, com passagens pelos veículos g1, BHAZ e Sou BH. Experiência em jornalismo digital, reportagem e edição de conteúdo.

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