Show de Shakira ainda fala e o recado é político
No feriado em que o Brasil debatia o direito ao descanso, Copacabana lotou para celebrar a Loba.

Nattany Martins
Colunista

A América Latina vive seus dias de primavera cultural, e Shakira representa bem esse pioneirismo. A artista dos anos 2000, que misturava espanhol a instrumentos árabes, aprendeu seis idiomas pela necessidade de mostrar ao mundo o valor do seu trabalho. Ela antecipou, ao vivo e em cores, o que seria a globalização do novo milênio.
No show da praia de Copacabana, no dia 2 de maio, Shakira disse que se identificava com as 20 milhões de mães brasileiras que precisam trabalhar para sustentar a casa sozinhas. A cantora colombiana transbordou seu carisma e força feminina, entregando ao Brasil todo o seu afeto.
Dois milhões de pessoas estavam presentes na areia, mas o alcance foi muito além. Entre a transmissão ao vivo pela maior emissora do país e as repercussões nas redes sociais, cerca de 30 milhões de pessoas souberam do evento de alguma forma. Os números confirmam o que os ouvidos já captavam da areia de Copacabana: o investimento da Prefeitura foi de R$ 15 milhões, mas o retorno financeiro superou os R$ 750 milhões.
Porém, reduzir a noite a cifras seria perder o ponto.
Segundo o Airbnb, após os brasileiros, as principais origens nas reservas do feriado do Trabalhador (1º de maio) foram Santiago, Buenos Aires, Montevidéu, Lima e Bogotá. O show de Shakira não apenas atraiu fãs, mas mobilizou as capitais do continente.
Afinal de contas, ela é uma artista que canta, dança, compõe com caneta afiada e, por alguma alquimia cultural, pertence a todos nós.
Em momentos de tensão política, nos quais o discurso anti-imigratório ganha força, a presença da maior artista latina transformou as areias de Copacabana em festa. No céu, drones desenharam a Loba — alcunha que acompanha Shakira desde os anos 2000 — ao lado de mensagens contra a escala 6x1, a pauta trabalhista mais quente do Brasil em 2026.
No chão, dois milhões de pessoas respondiam, à sua maneira. A escala 6x1 está em debate justamente porque os trabalhadores não têm tempo: para a família, para o lazer, para si. O show de Shakira no feriado é, sem querer, um manifesto prático: é isso que se faz com um dia livre.
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