Ter acesso não é ter privilégio, é sobre ter direito ao tempo e ao bem-viver
A vitória coletiva contra o racismo também passa por preservar saúde física e mental, além de enfrentar o consumo incentivado pelas redes sociais.

Lívia Teodoro
Colunista

Foto: Reprodução/Internet
Leva-se tempo para perceber que o importante mesmo é colecionar momentos, não coisas. A demora muitas vezes tem um motivo simples: para quem sempre foi visto sem nada, "ter" passa a significar acumular e exibir. Muitas vezes, crescer na vida torna-se sobre consumir objetos e não sobre finalmente aproveitar a oportunidade do acesso à informação, às memórias e aos direitos básicos que chegam a ser confundidos com luxo.
Muitos millennials que não eram herdeiros aprenderam que o trabalho era a saída prática para alcançar um carro, casa própria aos 30 anos ou carimbos no passaporte. Hoje, o capitalismo deixa claro que a dinâmica é outra. Existe uma parcela de millennials negros que, por conta de políticas de reparação, acesso à educação e boas oportunidades, foram além da expectativa que a sociedade brasileira tem para pessoas pretas e pardas e passaram a ter acesso a vivências antes consideradas exclusivas de grupos privilegiados.
A ostentação extrapola as letras do funk e faz parte do que é descrito como sucesso na vida real para muitas pessoas negras: conquistar o que antes era somente ausência ou sonho de televisão. É importante frisar que, em uma sociedade capitalista, o valor do indivíduo está diretamente ligado ao saldo bancário. No entanto, a conta no banco não é uma blindagem contra o racismo.
Segundo dados do IBGE de 2024, o Brasil tem mais de 9 milhões de pessoas analfabetas. Isso significa que quase 5% da população não sabe ler ou escrever, e a taxa é mais alta entre pessoas pretas ou pardas (6,9%) em comparação às brancas (3,1%). A falta de educação básica limita o repertório, o que permite afirmar que a relação com o consumo é, muitas vezes, uma resposta a séculos de privações.
Quando o sistema diz o tempo todo que alguém não pode ter, o ato de comprar torna-se um grito de existência. Mas é preciso avançar um passo: o sucesso não pode ser apenas sobre o acúmulo financeiro, mas sobre o que é possível preservar no corpo, na história dos que virão depois e na mente.
Para a população negra, ter acesso a alimentação de qualidade, tempo para exercícios e saúde preventiva é um ato revolucionário. No Brasil, a prevalência de hipertensão arterial é significativamente maior entre pessoas negras: 42% são hipertensas, e uma pessoa negra tem 24% mais chances de desenvolver a condição do que uma pessoa branca.
Uma das teorias para esse fato aponta que mercadores de escravizados lambiam a pele das pessoas capturadas para decidir quem seria vendido. Pele mais salgada significaria maior capacidade de reter sal e suportar a desidratação dentro dos navios negreiros, aumentando as chances de sobrevivência à viagem. Outra teoria discute que o fato de os ancestrais terem vivido em regiões da África com muito calor e baixo sal fez com que desenvolvessem a capacidade de reter mais sódio. Ambas as teorias mostram reflexos diretos na maior parte da população negra através de doenças crônicas impulsionadas pelo racismo e pela dificuldade histórica de acesso a cuidados básicos.
Ostentação também é poder reivindicar o direito a não fazer nada. Essa necessidade de estar sempre em atividade para validar o próprio valor é um sintoma de um trauma ancestral profundo. Historicamente, o corpo negro foi condicionado como ferramenta de exploração. Durante séculos, os ancestrais foram trazidos para este solo sob a sina de que sua única função era o trabalho exaustivo, sem direito à recompensa material, reconhecimento moral ou ao repouso. Essa herança colonial deixou uma culpa subconsciente quando não há produção, como se o ócio fosse um sinal de fraqueza.

Entender que não é necessário ostentar para preencher lacunas ancestrais é uma forma de ampliar o seu acesso. Escolher o momento em vez da coisa é trocar o acúmulo pela possibilidade de uma rotina saudável. O verdadeiro lugar de elite a ser reivindicado é o direito ao bem-viver: viajar para criar memórias, comer com calma e entender que a saúde física e mental é uma ferramenta de continuidade. A vitória coletiva ocorre quando o direito ao descanso e ao cuidado for natural, o direito de comer bem e ter tempo para o autocuidado forem reconhecidos como uma estratégia de preservação da vida. Priorizar esses hábitos significa enfrentar uma estatística que historicamente reserva o adoecimento precoce e a negação do bem-estar básico para a população negra.
E essa mudança de perspectiva exige reconhecer que o capitalismo transforma o tempo em mercadoria inacessível para a base da pirâmide social, enquanto empurra para as pessoas que sustentam essa base produtos caros como a solução para todas essas ausências. No momento em que superamos o desejo de acumular e temos acesso ao bem-viver, a verdadeira ostentação passa a ser a ocupação legítima de um espaço de dignidade negado pela lógica da exaustão.
Entender que romper a barreira da sobrevivência e alcançar o poder de compra é um marco, mas a liberdade real começa quando a conta bancária deixa de ser o único troféu de uma vida inteira. Se o consumo serviu para marcar território e provar existência, o acesso ao tempo agora serve para garantir a permanência através da reconquista do que foi roubado historicamente: o domínio sobre o próprio ritmo. Ter acessos deixa de ser sobre a posse e passa a ser sobre bem-viver. No fim das contas, a trajetória de quem veio do nada se completa quando a dignidade de viver com calma deixa de ser um sonho de televisão para virar o padrão básico da sociedade.
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