Uma nova geografia: a difícil tarefa de transformar uma cidade em feminista
Quando mulheres são impedidas de ir e vir, por falta de condições ou segurança, reforçamos a manutenção de privilégios e do poder masculino.

Márcia Maria Cruz
Colunista

Foto: Reprodução/Internet
Quando as mulheres são impedidas de ir e vir, por razões materiais ou por uma percepção de falta de segurança, estamos contribuindo para manutenção de privilégios e poder masculino.
Você já andou pela cidade e sentiu medo? De acordo com sua resposta, podemos inferir, com certeza, se você é homem ou mulher. Se você é mulher, fatalmente já sentiu medo ao andar pelas ruas e praças. A experiência das mulheres no espaço urbano é atravessada pelo medo de uma forma bem distinta da vivência dos homens. Com alguns exemplos podemos trazer indícios dessa diferença de percepção entre homens e mulheres: mulheres assediadas no transporte público, abusos sexuais nas ruas, casos de estupros e outros tipos de violência. Mas o que a maneira como a cidade é concebida tem a ver com tudo isso? Você já se perguntou, se as cidades fossem olhadas a partir da lente do gênero, como os espaços urbanos podem ser vivenciados?
Essa reflexão sobre uma cidade menos hostil às mulheres é proposta pelo livro "Cidade feminista: A luta por espaço em um mundo desenhado por homens", da autora canadense Leslie Kern. Te convido para fazer essa reflexão. A autora apresenta uma abordagem histórica do estabelecimento das cidades desde o processo de industrialização e modernização e nos convoca a pensar sobre a geografia das cidades, principalmente as metrópoles.
É uma revolução nós mulheres deixarmos o ambiente doméstico e ocuparmos os espaços públicos com nossos corpos, ideias, sonhos, jeito de ser. Mas a nossa presença no espaço urbano é marcado pelo que somos porque a arquitetura, a urbanização não é neutra. Mesmo sem pensar na diferença que a arquitetura pode representar para homens e mulheres, nós, mulheres, criamos mapas mentais para se deslocar que embasam questionamentos frequentes: o que você estava fazendo naquele local ermo? Por quê estava sozinha naquele bairro? Por quê escolheu aquele caminho? Você não viu que o local não estava iluminado, por quê passou por lá?
Além do aspecto material, ainda há um imaginário em relação à cidade, que molda a nossa percepção quanto a segurança. Fica a percepção de que a cidade não foi construída para nós mulheres circularmos. Ao longo da história, rompemos com essa geografia, quando ocupamos cargos que não foram pensados para nós, quando nos envolvemos em causas sociais, nos engajamos em movimentos políticos ou não performamos a feminilidade esperada. Os medos não afastam a vivência das mulheres nas cidades, mas moldam o jeito de estar. Ao recorrer a ideia de uma geografia feminista, a autora nos coloca a pensar sobre a nossa relação com o ambiente. É nesse sentido, que podemos fazer um exercício de imaginação para pensar como as cidades podem ser mais feministas:
Quando as mulheres são impedidas de ir e vir, por razões materiais ou por uma percepção de falta de segurança, estamos contribuindo para manutenção de privilégios e poder masculino. Por isso, todos os movimentos para tornar as cidades mais feministas são importantes. É um movimento de tornar o espaço urbano melhor para todos, para homens e mulheres.
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